Rua do Rosário com igreja dos Pretos ao fundo, e atualmente


A HISTÓRIA DE PIRENÓPOLIS

(Por Eduardo Leal)

 

POEM: THE HISTORY OF PIRENÓPOLIS

(By Eduardo Leal)

Eu falo e você repete, Pirenópolis nasceu em 1727
Sete de outubro é seu aniversário, Dia de Nossa Senhora do Rosário
Seu primeiro nome, segundo minha fonte
Foi Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte
O fundador foi Manuel Rodrigues Tomar
Colonizador português que aqui veio se instalar
No Rio das Almas o ouro era abundante
Muito ia pra Portugal num movimento constante
Mas a riqueza era tanta que a cidade começou a crescer
Suntuosas igrejas e lindos casarões começaram a aparecer
O comércio ficou forte no local
Que em Goiás passou a ser o centro comercial
A primeira rua de Pirenópolis foi a Direita
Larga, bonita, perfeita
Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte cresceu feliz
Mas os pretos, escravos não podiam entrar na Igreja Matriz
O que fizeram, então, nossos irmãos?
Ergueram a Igreja dos Pretos com as próprias mãos
Em 1750 foi edificada a Igreja do Bonfim
Por Antônio José de Campos, que em volta fez um jardim
Outra igreja que merece nota
Foi a Nossa Senhora do Carmo, criada pelo Frota
Já no século XIX quando o ouro esgotou
Joaquim Alves de Oliveira por aqui chegou
Comendador arguto e inteligente
Por aqui deu emprego a muita gente
Montou grande engenho, comércio e transporte
Levar seu produto em mulas era seu esporte
Criou jornal e escola padrão
Investiu em cultura e educação
Sua história está na fazenda Babilônia, aqui perto
Guardada por seus herdeiros, para o público o ingresso é aberto
O tempo passou e a cidade perdeu sua expressão
Mas ficava aos pés da serra Pireneus, o que chamou atenção
Foi aí, que no final do século XIX, seu nome mudou então
Passou a ser Pirenópolis de Goiás
Gostosa, bonita e em paz.
Pirenopolinos de credibilidade reconhecidas
Colaboraram com informações precisas
Entre eles o Jarbas Jaime, escritor
E Pérsio Forzane, o pintor
Igreja de Nossa Senhora do Rosário
É nossa igreja matriz este santuário
Em 1728 foi construída como monumento
Vive bela e importante até este momento
Foi a primeira construção religiosa no estado
Por sua importância, temos que mantê-la com cuidado
Nossa matriz é bela e iluminada
A qualquer hora do dia o sol ilumina sua fachada
Nossa Senhora do Rosário está em seu altar
A arte sacra antiga embeleza o lugar
Sepultaram pessoas ilustres no seu chão
Que deixaram histórias da época da escravidão
Tem dois anjos no seu interior
Diz a lenda de energia superior
Que eles vão ser anunciadores
Do fim do mundo e das dores
Aí veio o incêndio em 2002
Restaurada e entregue um ano depois
Mantém-se bela a altaneira construção
Levando fé e esperança para a população
Outra igreja importante para mim
É a do Nosso Senhor do Bonfim
Para decorar o altar central
Uma imagem de tamanho natural
Trazida por Antônio José de Campos, seu benfeitor
Da cidade de Salvador
Por caminhos religiosos e vagarosos
Nas mãos de 260 escravos valiosos
Perto do Rio das Almas, na margem direita
A Igreja do Carmo foi feita
Outra bela construção se nota
Construída pelos escravos do Frota
Esse ilustre personagem da história
Também tem sua lenda e glória
Dizem que enterrou um tesouro
Um baú cheio de ouro
No morro que tem seu nome
Os escravos que para lá foram enviados
Tiveram suas línguas cortadas e olhos furados
Para não indicarem o lugar
Onde sua riqueza foi parar
Até hoje esta beleza é procurada
Ninguém sabe onde foi enterrada
Outra história que o Frota deixou
Foi seu poder que sempre esbanjou
Suas filhas por onde passavam
Nos seus cabelos usavam
Pó de ouro para enfeitar
Porém o castigo não demorou a chegar
Foi triste o final dessa história
Que os pirenopolinos guardam na memória
A falência dessa família
Que de riqueza e mordomia
Acabaram pobres, desprotegidos
Pela miséria foram atingidos
Na época o povo ouviu sua filha falar
Que era mais fácil a água do rio pra serra voltar
Do que seu ouro e poder acabar
O céu castigou, o ouro acabou
Seu tesouro o Frota enterrou
E a pobreza chegou.
Outra história interessante da cidade
Foi a igreja dos pretos sem liberdade
Não podiam entrar na matriz para rezar
Resolveram sua própria igreja criar
Veio então a igreja dos pretos, Nossa Senhora do Rosário
Deixou história quem ali foi operário
Anos depois foi demolida
Mas a história de sua vida
Está registrada e bem guardada
Onde hoje tem o coreto instalado
No coração do povoado
Pelo seu conjunto urbanístico
Arquitetônico e paisagístico
Pelo valor historio e cultural
E preservação excepcional
Pirenópolis é patrimônio histórico
E artístico nacional
Sua área preservada e natural

I speak and you repeat, Pirenópolis was born in 1727

The seventh of october is its anniversary

Day of Our Lady of the Rosary

Its first name, according to my source

Was Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte

The founder was Manuel Rodrigues Tomar

Portuguese colonizer who settle here

In the River of Souls the gold was abundant

Much did he go to Portugal in a frequent movement

But the wealth was so much that the city started to grow

Sumptuous churches and beautiful mansions started to show

The commerce grew strong in that place

Which in Goiás turned out to be the commercial center

The first street of Pirenópolis was the Direita

Large, beautiful, perfect

Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte grew happy

But the black, slaves could not get in the Igreja Matriz

What did they do, my brothers?

Raised the Church of the Black with their own hands

In 1750 the Igreja do Bonfim was built

By Antônio José de Campos, and around it a garden he made

Another church which deserves to be noticed

Was the Nossa Senhora do Carmo, created by Frota

Already in the 19th century when they ran out of gold

Joaquim Alves de Oliveira here arrived

Shrewd and intelligent comendador

Around here to a lot of people he gave jobs

Set a big mill, commerce and transport

Carry his product on mules was his sport

Created a journal and standard school

Invested in culture and education

His history lies in the Babilônia farm, hereby

Kept by his heirs, for the public it is open

As time passed and the city lost its expression

But it stood at the base of Pyrenee ridge, which drew some attention

Then, at the end of the 19th century, its name changed

It became Pirenópolis de Goías

Pleasant, beautiful and at peace

 Pirenopolians with known credibility

Cooperated with precise information

 Another important sanctuary to me

Is the Nosso Senhor do Bonfim

To decorate the central altar

A natural sized form

Brought by Antônio José de Campos, its benefactor

From the city of Salvador

Through religious and slow ways

In the hands of 260 valuable slaves

Near the River of the souls, at the right margin

The Igreja do Carmo was built

Another beautiful construction that is noticed

Built by the slaves of Frota

This illustrious historical character

Has also his legend and treasure

A chest full of gold

In the hill that has his name

The slaves that there were sent

Had their tongues cut and their eyes pierced

To not indicate the location

Where the wealth took place

Until today the this beauty is searched

Nobody knows where it was buried

Another story that Frota left us

Was the power he always squandered

His daughter, everywhere they went

In their hairs they wore

Golden power to garnish

But the punishment did not delayed to come

So sad was the end to this story

That the pirenopolians kept in their memory

The bankruptcy of this Family

Which from wealth and luxury

Ended up pour, unprotected

By the misery they were struck

At the time people heard his daughter say

That it was easier for the river water to go to the ridge

Than their gold and power to cease

Heavens punished, the gold vanished

His treasure Frota concealed

And poverty came

 Another interesting story

Was the church of the black with no liberty

They could not get inside the main church to pray

Decided their own sanctuary to created

Built Nossa Senhora do Rosário, the church of the black

The workers there history made

 Among them, Jarbas Jaime, the writer

And Pérsio Forzane, the painter

Igreja de Nossa Senhora do Rosário

It is our main church

In 1728 was built as a monument

Lies there beautiful and lit

At any time of the day by the light of the sun his façade is hit

Nossa Senhora do Rosário is at her altar

The sacred art beautifies the place

Illustrious people were entomb in its ground

Who made history in the slavery time

There are two angels inside

Tells the legend of superior energy

That they will announce

The end of the world and the pain

Then in 2002 the fire came

One year later restored and delivered

Remains a beauty the haughty construction

Bringing faith and hope to its population

Years later demolished it was

But the history of its life

Is registered and well kept

Where today lies the bandstand

In the heart of the village

For its urban set

Architecture and landscape

For its value, historical and cultural

And exceptional preservation

Pirenópolis is a heritage-listed building

and national art heritage

its area preserved and natural

 


Fotos Coloridas e Montagem: Delano de Aquino Silva
Com exceção da foto “Ponte sobre o Rio das Almas em 1892 e hoje
Fotos em Preto e Branco: Arquivo Publico do Distrito Federal


Casa do IPHAN


Casarões em frente à Igreja Matriz e Rua do Bonfim ao fundo.


Cheia do Rio das Almas nos anos 1930


Construção da Ponte sobre o Rio das Almas


Igreja do Bonfim


Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário


Largo da Matriz


Ponte sobre o Rio das Almas em 1892 e hoje.


Ponte sobre o Rio das Almas


Rua Aurora antes (com a Igreja de N.S. do Rosário dos Pretos antes de ser demolida em 1944) e hoje.


Rua Aurora com igreja do Bonfim


Rua da Prata e Largo da Matriz


Rua Direita


Rua do Bonfim com Ponte de Pedra


Rua do Rosário em 1917 e hoje


Rua do Rosário com a Igreja do Pretos


Mulher, Santa e Guerreira

image

Benedita Cipriano Gomes nasceu em 17 de janeiro de 1903 na Fazenda Mozondó à 40 km de Pirenópolis. Por volta de 7 anos de idade, Benedita, ou melhor Dica como era chamada, caiu enferma culminando com a perda total de seus sinais vitais. Durante o banho do defunto, notou os familiares que Dica suava frio e muito. Com receio de enterrá-la, mantiveram o velório e após três dias, Dita ressurgiu viva da morte eminente.

Tal Fato espalhou-se pela região como um milagre. Romarias de fervorosos e crédulos roceiros migravam para pedir-lhe a benção e conseguir graças. Em poucos anos, já mocinha, Dica comandava legiões de adoradores que seguiam suas ordens com fiel devoção e em torno de sua casa formou-se povoado. Dica instituiu sistema de uso comum de solo e aboliu o uso genérico de dinheiro, fazia curas milagrosas, rezava missas e dava conselhos. Pregava a igualdade, abolição de impostos, a distribuição de terras. Para Dica a terra era de propriedade do Criador e foi feita para todos. Em sua fazenda não existia cercas e todos os recursos, oferendas e colheitas era revertidos para a comunidade. Para suas curas milagrosas recebia Dica os espíritos do Dr. Fritz, da Princesa Silveira e de um Comandante. Esperava a vinda do Messias para a libertação das doenças e pobrezas.

Com tal política chegou a reunir em torno de si 15.000 almas, 1.500 homens capacitados para o uso das armas e cerca de 4.000 eleitores. Seu poder incomodava os coronéis da região, que viam na Dica uma certa reprodução do episódio de Canudos com perdas de trabalhadores e poder sobre a população.

Porém a fama de Dica espalhou-se pelos sertãos atraindo mais e mais fiéis. Jornais goianos e mineiros denunciavam como um embuste a romaria fervorosa e pediam providências ao governo contra os fanáticos diqueiros, desertores de suas escravagistas fazendas. Até o clero suplicou, em vão.

O que era Rio do Peixe foi redenominado Rio Jordão e Dica reforçou sua força popular e política editando um jornal manuscrito: "A Estrela do Jordão Órgão dos Anjos, da Côrte de Santa Dica".

Os adoradores da Santa Dica, armados, juravam protegê-la contra qualquer tentativa de prisão. As autoridades de Pirenópolis com a polícia municipal se declaram impotentes contra os diqueiros. Restou ao Governo Estadual, em março de 1925, mandar um destacamento, sitiar o local e prender Dona Dica. Um mínimo seria o suficiente para o massacre. Quando um tio de Dica atirou contra os policiais choveu projéteis de metralhadoras sobre as palhoças e o sítio de Dica. Pela "boca do povo" diziam que as balas iam de encontro à Dica, enrolavam em seus cabelos, ou batiam em seu corpo, e caiam pelo chão. Tanto que houve apenas três mortes. Dica ordenou a todos que atravessassem o rio Jordão, que passa por trás de sua casa, para fugir do massacre. Dica foi resgatada por um de seus fiéis puxada do rio pelos cabelos e acabou sendo presa. Dizem na tradição oral que Santa Dica neste episódio amarrou uma sucuri no poção ao fundo de sua casa para que os soldados não pudessem atravessar o rio. Até hoje a população de Lagolândia acredita e não nada naquele local com medo da sucuri da Santa Dica.

A Prisão de Dica não durou muito tempo. Pressionados pela população e sem provas criminatórias o governo acabou cedendo e liberou-a. A partir daí Dica ingressou na política, seus seguidores votavam em quem ela mandasse. Formou exército e foi patenteada com a insígnia de cabo do exército brasileiro. Comandava tropa de 400 homens, que ficaram sendo conhecidos como "pés com palha e pés sem palha", pelo motivo de que sendo a tropa integrada por analfabetos confundiam esquerda com direita. Dica então usou o estratagema de amarrar um pedaço de palha em um dos pés para poder ensinar-lhes a marchar.

Em 1928 casou com o jornalista carioca Mário Mendes, eleito prefeito de Pirenópolis em 1934, e tiveram cinco filhos e adotaram mais dois. O exército dos "pés com palha e pés sem palha" participou da Revolução Constitucionalista de 1932 indo guerrear, com 150 homens, em São Paulo onde voltou sem nenhuma baixa, resultado atribuído aos milagres da santa. Episódio famoso foi quando seu exército precisava passar pela ponte de Jaraguá, em São Paulo. Esta estava minada e Dica mandou que um de seu soldados a atravessasse de olhos vendados, fato concluído sem detonar nenhuma bomba. E assim foi com a tropa toda que vendados um a um transpuseram a ponte, que veio a ruir após passar o último soldado. Também teve Dica enfrentado a Coluna Prestes. Com uma tropa de 400 homens impediu que os mesmos ingressassem pelo Triângulo Mineiro.

Muito milagres foram realizados por ela. Histórias populares contam que ela andava sobre as águas do Rio Jordão, faziam muitas curas milagrosas e sua tropa era protegida milagrosamente, tanto que quando as balas atingiam seus soldados esta caíam no chão com caroços de milho.

Morreu Dica aos 9 de novembro de 1970 em Goiânia e foi sepultada, conforme seu desejo, debaixo de uma gameleira em frente a sua casa em Lagolândia. Legiões de seguidores cortejaram e velaram durante três dias o corpo da Santa, demonstrando o amor e devoção cativado pela linda moça da Fazenda Mozondó, guerreira e santa.

Lagolândia, hoje, é um povoado do município de Pirenópolis, com algumas centenas de habitantes e algumas dezenas de casas, que rodeiam uma bela praça onde o busto de Santa Dica lidera o espaço dividido entre bancos, flores, imagens de Nossa Senhora e o sepulcro sombreado da Santa. Em sua antiga casa descendentes mantém um visitado altar dedicado a Santa e toda o povoado vive à sua memória.

Texto de Mauro Cruz
Agradecimentos à Pompeu Cristovam de Pina

Fonte: http://www.pirenopolis.tur.br